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Sunday, November 11, 2012

Sua Santidade o Dalai Lama

Confesso que eu estou longe do desapego material, porque o que eu mais queria era trazer ele pra casa com a gente... Um senhor tão carismático! Tão fofo!!! Deu vontade de abraçar e apertar forte...

Fomos convidados para participar desta conversa entre S.S. o 14o Dalai Lama e cientistas japoneses. Aceitamos e recebemos ingressos para as quatro sessões. Todas foram no salão de um dos hotéis mais tradicionais e renomados de Tóquio que, obviamente, esteve sempre lotado. Pelos meus cálculos, cabia umas 1.500 pessoas e cada ingresso valia US$ 150.  
Umas 50 filas de 30 cadeiras

Em algumas sessões os cientistas falaram demais e o Dalai Lama de menos. Na última ele falou bastante, e é muito gostoso ouvir o que ele tem para dizer. Acho que o mundo seria um lugar melhor se mais gente seguisse os ensinamentos dele (budismo tibetano). 


Ele falou que a paz não virá através das guerras, armas e de resoluções internacionais, mas sim da paz interior de cada indivíduo. Tendo uma mente pacífica podemos resolver qualquer conflito através de meios pacíficos. Que isso não significa a ausência de raiva, mas é preciso ter inteligência para analisar nossas emoções. Ter uma mente pacífica é algo que se aprende e, na opinião dele, educar para isso é a prioridade do mundo de hoje. 

Disse que a religião nunca será universal, e que a paz não é resultado de oração, mas de ação! 
Viseira, por causa dos holofotes
Que os desentendimentos devem ser transformados através do diálogo e do respeito.

Também falou que a geração dele tem que estar se despedindo do mundo e passar a bola para as novas gerações que, por sua vez, têm a responsabilidade de criar um mundo pacífico. Temos que educar as novas gerações sobre a importância de uma mente pacífica, através do amor e da compaixão, que é o caminho para uma vida feliz. E como ele mesmo disse: desenvolver a compaixão não tem efeitos colaterais.

Quando tocaram no tema da reencarnação ele falou que era irrelevante discutir a vida após a morte. Na vida, tudo tem seu começo e seu fim. E o que tem real importância é o que você faz em vida. 

Foto de Alvaro Cedeno
Todos estes conceitos e a maneira dele de pensar são mais claros para quem já leu o livro dele: "A Arte da Felicidade - Um Manual Para a Vida". Se você ainda não leu, compre djá! Faz bem para qualquer um.

Estávamos na primeira fileira, bem em frente à escada que dava acesso ao palco. Na saída, ele desceu e parou na nossa frente. Deu uma mão para o Álvaro, outra para mim e perguntou de onde éramos. O representante no Japão do Governo do Tibet no Exílio  apresentou o Álvaro como Embaixador da Costa Rica. O Dalai Lama disse: "Ah, Costa Rica!", com um sorriso no rosto. 

É por experiências como esta que o dia a dia de Embaixatriz vale à pena. 





Sunday, October 28, 2012

Xintoísmo - filosofia de vida

shintō
É um conceito muito interessante e muito difícil de ser explicado. Oficialmente, é uma religião e a principal do Japão. Mas é muito mais que isso: é uma fé, uma filosofia de vida. Para os japoneses é um costume, uma tradição.

O xintoísmo nasceu aqui no Japão há milhares de anos, antes mesmo do budismo chegar aqui da China no século VI. E se você perguntar o que é xintoísmo para 20 japoneses, provavelmente terá 20 respostas diferentes.

O conceito é tão vago e ao mesmo tempo tão intrínseco da cultura japonesa que é muito difícil definir e separar exatamente um do outro. Faz parte de todo japonês. Até dos cristãos ou ateus. Chamar de religião é limitar o significado.

O xintoísmo se confunde muito com o budismo, e acho que a melhor diferenciação que eu ouvi foi: o budismo lida com a morte e o xintoísmo lida com a vida. Não é a toa que os rituais de passagens dos japoneses geralmente são:
- quando nasce um bebê, a família vai ao santuário xintoísta para abençoa-lo;
- se casam numa igreja cristã ou num santuário xintoísta;
- funerais são feitos em um templo budista.

Uma maneira fácil de saber se você está num santuário, é ver se existe um torii na entrada.


Já dá para começar a entender a complexidade da coisa. Em nenhum outro lugar do mundo eu vi tamanha mistura entre diferentes "religiões".
torii na escalada do Monte Fuji

Xintoísmo significa "caminho dos deuses" e possui as seguintes características:
- Adoração a "divindades";
- Politeísta;
- 3 "nãos": não tem um fundador/criador, não tem uma escritura e não tem uma doutrina a ser seguida.

Para entender o xintoísmo é preciso entender o que são os deuses ou divindades para os japoneses. Eles consideram como deuses/espíritos divinos o poder divino e misterioso de todas as coisas vivas, então quase tudo pode ser uma divindade. Montanhas (ex: Monte Fuji), mares, florestas, rios, ventos, etc. Tudo isso tem vida, e um poder que o homem não controla. Todos são deuses.

E melhor, nós humanos também podemos ser adorados e podemos virar deuses depois da morte. Os japoneses acreditam que nossos ancestrais nos protegem. E para isso, continuam adorando e cuidando deles como guardiões, como parte da família.

shinto priest vestido para cerimônia
O xintoísmo é super flexível. Ninguém te fala o que você tem que fazer ou não, o que é certo e o que é errado. O padre (que é uma pessoa normal, que vive uma vida normal, exatamente como qualquer um de nós, pagam impostos, etc) disse que "ninguém precisa te dizer que matar outra pessoa é errado para que você saiba que é". E, ironicamente, no nosso lado do mundo tem gente que repete isso todos os dias e continuamos nos matando. Em compensação aqui, ninguém fala, e ninguém mata ninguém!

Os santuários xintoístas nada mais são do que a "casa dos deuses". Existem 80.000 registrados no Japão, mas acham que há mais de 100.000 no total, incluindo os pequenos e independentes. Na verdade, qualquer um pode ter um santuário, até mesmo dentro de casa, então realmente o número deve ser imenso. Minha avó tinha um santuário dentro do quarto dela e todos os dias ascendia um incenso e fazia seu agradecimento, sua reza.

torii na entrada do Meiji Jingu
O xintoísmo também vem acompanhando as mudanças do Japão, abraçando a modernidade, mudando junto com as pessoas. Por exemplo, o Meiji Jingu (um dos maiores e mais famosos santuários em Tóquio e um destino turístico imperdível) foi criado em 1920 para entesourar o Emperador e a Imperatriz Meiji. Ele foi o responsável por revolucionar, reformar e renovar o Japão, e em grande parte por fazer do Japão a pontência que é hoje, social e economicamente.

Entender melhor o xintoísmo me ajudou a entender também a maneira como os japoneses lidam, por exemplo, com tsunamis, terremotos, e até com a morte. Eles já foram atingidos milhares de vezes e sabem que vai acontecer outra vez. Acho que é justamente por encarar tudo isso como parte da vida, como manifestação dos deuses, é que eles aceitam estes fatos sem maiores dramas. A vida como ela é.

Também acho que é justamente por este respeito maior por estes deuses "naturais" e vivos, é que o Japão tem 70% do seu território coberto por bosques e florestas. São representações das divindades. Os japoneses estão preocupados em como lidamos com a natureza, com o impacto que temos no meio-ambiente. Na apresentação sobre xintoísmo mostraram um vídeo que trazia um texto/poema e dizia: "uma folha cai no chão e vira terra, pra virar árvore e folha outra vez". Tão simples, mas mesmo assim parece que tanta gente ainda não sabe né?

Outra coisa que ficou clara para mim é que nem tudo no mundo precisa de uma explicação racional para existir. Tem coisas que simplesmente existem. Ponto. O xintoísmo é um bom exemplo disso. Existe há milhares de anos e super presente no cotidiano dos japoneses.

Tudo isso me fez pensar em como seria o mundo se, o ao invés dos valores e das morais cristãs por exemplo, tivéssemos o xintoísmo como filosofia de vida?